E de repente as vi indo embora. Vendi todas as minhas ideias para um desconhecido colorido, um maluco de chapéu esvoaçante e tão colorido quanto a noite de ano novo. Ele se dizia um comprador de ideias. Chegou com um papo estranho, contando histórias malucas de sua infância, de seus outros trabalhos, contava uma história mais louca que a outra. De começo não entendi aquela figura. Era uma figura diferente, aquele tipo de figura que chama a atenção, mas que ninguém realmente se importa.
Disse que tinha um emprego, uma missão, algo que tinha que fazer. Me contou que era um comprador de coisas. Mas não de coisas comuns. Um tipo de comprador diferente. Disse que não aparecia para todos, só para poucos, e que isso fazia de mim alguém especial. Falou que precisava de algo que pertencia à mim, uma coisa importante, uma coisa mais que diferente. Queria que eu vendesse minhas ideias e meus sonhos para ele.
Que cara maluco, logo pensei. Mas tive calafrios quando percebi que ele não estava brincando, estava falando mais sério do que já vi alguém falar. Achei que estava ficando doido. Um maluco me chega pedindo para que eu venda minhas ideias e meus sonhos para ele. Penso comigo mesmo: ele só pode ter saído do hospício. Mas havia algo nele que me dizia que tudo aquilo era verdade, que ele não estava louco, que ele não estava inventando história, que ele queria comprar mesmo. Eu venderia meus sonhos e minhas ideias e ele me daria uma coisa em troca. Uma coisa que não contarei aqui, algo pessoal e complicado. Mas era uma oferta tentadora e complicada. A oferta dele era boa. Percebi que o que ele queria mesmo eram meus sonhos.
Acho que sonhos tem um valor muito grande no mercado negro. Sonhos são muito fortes, pirados, coloridos, monocromáticos, complexos… sonhos são tudo no mundo. O mundo é movido a sonhos. Decidi que venderia minhas ideias. Afinal, ideias não são tão importantes, não é? E a oferta era realmente boa. Ou pelo menos parecia. Quando finalmente decidi aceitar a oferta, o comprador me disse que o trato só seria firmado quando nós apertássemos à mão um do outro. Então o fiz. Quando apertei a mão dele, senti a maior dor que já senti em toda minha vida. E de repente as vi indo embora.
Quando percebi, não tinha mais nada na cabeça. Só meus sonhos, nenhuma ideia que me atrapalhasse, nenhum medo estúpido ou sem sentido. Só os sonhos. Minha mente era pura e simplesmente um mar de sonhos. A unica coisa que importava agora, para mim, eram meus sonhos. Eu tinha que ir atrás deles, sabia disso. E fui atrás. E assim fui feliz. Agora que já realizei todos e já estou morto -são sinônimos-, entendo a missão daquele comprador maluco. A missão dele era liberar as pessoas de seus medos para que elas pudessem ir atrás de seus sonhos, sem medos e ideias contrárias. A missão dele era deixar as pessoas serem felizes.




