Primeiro Capítulo - A carta
Eram quatro horas da manhã quando ouvi um barulho em nosso quintal. Um barulho metálico bem alto. Provavelmente era alguém mexendo ou, talvez, roubando algo da nossa caixa de correio ou de nossa lixeira. Rapidamente me levantei, sabendo que minha mulher - com o sono pesado que tinha - não o faria, e fui ver o que estava a acontecer lá fora. Olhei pela janela, ainda com a visão embaçada, para tentar ver o que estava acontecendo, e a unica coisa que vi foi aquela imensa escuridão, a prefeitura vinha prometendo há mais de um ano arrumar a iluminação, da famosa e já meio decadente rua em que morávamos: a Sir Arthur Watson. Por um momento pensei ter visto um vulto preto indo embora apressado, mas provavelmente era só fruto da minha visão embaçada e das sombras formadas pelas luzes semi-acesas que transbordavam das janelas vizinhas.
Tinha certeza que haviam mexido em algo. Não sabia se ainda havia alguém no quintal, e em razão disso peguei um velho taco de beisebol (do tempo em que jogava no time da universidade) e saí. Dei um grito:
- Alguém aí?
Ninguém respondeu. Ainda bem, pensei comigo. Já com meus trinta e poucos anos, não diria que sou das pessoas com o melhor preparo e porte físico, e uma briga com um ladrão não seria algo muito prazeroso. Os anos de emprego no banco- que me reservaram, e ainda reservam, excessivas horas de trabalho em frente ao computador- não me foram muito generosos com a saúde. Meus vícios também contribuíram de forma a aumentar a gravidade do meu problema. O cigarro era, com certeza, o pior dos meus problemas; a asma me atrapalhava um bocado. Fui então dar uma olhada na lixeira e na caixa de correio.
Comecei pela caixa de correios e logo encontrei algo muito interessante e estranho, além, claro, das diversas cobranças que não cansavam de aparecer e atormentar o meu já desgastado casamento. Havia dentro da nossa bem usada caixa de madeira uma carta diferente. Não via-se remetente na parte de fora, somente tinha um escrito:
Esta carta não deve ser violada em ocasião alguma. É de extrema importância que seja aberta somente pelo Senhor Brian Carter. Contém assunto de absoluta urgência.
Aquilo era demasiadamente inesperado. A vida pacata dos últimos anos sem dúvida me transformara em alguém rotineiro, e essa carta fugia totalmente da rotina. Entrei pela porta da cozinha, arranjei uma cadeira perto da mesa de jantar e fiquei a pensar se jogava a carta fora ou se a lia. Apesar de um tanto assustadora, a minha maior, e talvez infeliz, virtude não me deixou jogá-la fora. Eu ainda era curioso demais para deixar algo assim escapar das minhas mãos. Decidi lê-la. Abri-a com todo o cuidado para que nenhuma mínima parte se rasgasse- pois sempre soube o quão desastrado sou. Analisei tudo primeiro: a letra era, de uma certa maneira, diferente e instigante;a cor vermelho escarlate da grafia era decididamente suspeita; a carta aparentava ter sido escrita as pressas: havia rabiscos e as letras estavam bem juntas. O mais impressionante, sem dúvida alguma, era uma gota de algum líquido vermelho que pairava no topo da folha. Parecia sangue, mas essa ideia logo afastou-se por parecer muito nefasta. Enfim comecei a leitura.




