O barulho do vento
Dez da noite e a gritaria começava de novo atrapalhando o sono da vizinhança inteira. Mais um dia, a mesma coisa, o mesmo quebra-pau, as mesmas ofensas e o mesmo final: o garoto jura que irá fugir de casa, o pai (um ex-militar da segunda guerra mundial) dá uma surra nele e o coloca de castigo; e a mãe submissa assiste a tudo com lágrimas de arrependimento de uma escolha errada, e de, talvez, um pouco de raiva do filho. E todo dia é assim, esse é o maravilhoso cotidiano daquela família.
Era vizinho da família e por isso conhecia a rotina inteira dela, sabia de tudo( ou quase tudo). O menino, já com 16 anos, tinha algo nos olhos, algo que talvez só os adolescentes têm, algo que seus pais nunca entenderiam. E esse era o grande problema: os seus pais, principalmente o pai. Acredito que nenhuma relação entre pai e filho seja fácil, todas têm os seus problemas, mas a deles com certeza foi a mais complicada que já vi, bem mais do que a minha. Não havia um ponto sequer em comum entre os dois, não existia nada em que os dois concordassem, desde a guerra do Vietnã até o estilo de música a ser tocado no rádio do carro, tudo que existia naquela família era discussão e discussão.
Mas havia algo de errado naquele dia, a intensidade dos barulhos estava maior, o cachorro latia mais alto, até o vento na rua parecia entender o que estava acontecendo. Acredito que o limite havia sido alcançado, e aí atitudes extremas foram tomadas. E de repente a sinfonia do vento foi cortada pelo som de um tiro, seguido de um silêncio cortante.
O filho havia voltado tarde para casa mais uma vez na semana. Tinha ido a uma festa na casa de um amigo, e de novo tinha cheirado cocaína. Quando chegou em casa, viu a cena habitual de toda noite em sua casa: o pai batendo em sua mãe, enquanto ela pedia desculpas (sem motivo algum) e implorava pela misericórdia do marido. Assim que o viu, o pai, aproveitando o momento, chegou perto do filho, e lhe disse:
- Você é igual a sua mãe, um fracassado, um completo fracassado - Deu um cuspe na cara do filho, e foi continuar a surra na mulher. Porém não deu tempo. Enquanto ia à cozinha (onde a mãe tentava limpar o próprio sangue derramado no chão) o filho foi ao quarto, voltou e o chamou. Quando o pai virou, encontrou a seguinte cena: o filho segurava a espingarda que pertenceu ao avô - um velho americano caçador de veados - apontada para ele. Ele olhou o pai no fundo dos olhos, ainda no êxtase do efeito da cocaína, e disse:
- O fracassado da família é você, sempre foi e sempre será. Eu tenho nojo de ser seu filho, eu tenho nojo de ter o mesmo sangue que você.
E dito isso, o gatilho foi apertado. O barulho do vento lá fora parou, o cachorro calou-se, e a unica coisa que se ouviu foi o estrondo do corpo do pai caindo no chão, a cabeça perfurada pela bala calibre trinta e oito. Acabou. Tudo havia acabado. Todo o sofrimento da família havia acabado. A mãe mandou o filho buscar a pá para enterrar o corpo rapidamente embaixo da garagem. Ninguém nunca descobriu. A mãe e o filho conseguiram a liberdade que deles sempre foi tomada pela presença do pai, e viveram muito bem a vida inteira.
Afinal, até que foi uma cena cômica.