Another Day

Pensamentos de uma bela manhã de quinta-feira à noite.

Definitivamente aquilo era estranho. Num momento com a cabeça na maciez do meu quarto, no outro estava num velho conhecido morro, um morro que ficava perto da casa onde eu morava quando criança. Era um lugar famoso por sua ponte, que ligava-o à um outro morro menos importante, e também famoso por suas incríveis névoas que cobriam-no completamente durante as manhãs de inverno e de outono.

Estava andando por lá, mas algo havia de diferente naquele lugar, havia uma névoa muito grande, e era uma manhã gélida, mais do que o normal naquele morro, como se a névoa estivesse sugando qualquer calor existente, qualquer felicidade que estivesse por perto. Continuei andando pelo lugar, à procura de algo que não sabia direito o que era.

Quando vi, logo soube o que estava mudando todo o clima dali. Algo complicado e diferente, uma amiga minha estava em um canto, olhando fixamente para a ponte, e chorando sem parar. Ela chorava, e soluçava sem hesitar. Fui correndo ver o que estava acontecendo. Foi diferente, algo muito diferente aquilo que aconteceu.

Cheguei à minha amiga e perguntei:

- Mas o que aconteceu?

Ela me respondeu, com uma imensidão de tristeza, a qual percebi quando olhei no fundo dos seus olhos, os mesmos que lacrimejavam sem parar, e entendi a solidão eterna que ela sentia naquele momento:

- Sabe os mortos que vivem debaixo da ponte? Então, eu converso com eles.

Talvez tenha sido o momento mais terrível de toda a minha insignificante existência. Olhei para seus olhos, e dentro havia um olhar mortal, como se ela mesma estivesse morta. No momento em que ela me disse isso, cada parte do meu corpo, do dedinho do pé até o último fio de cabelo, se arrepiou, e eu senti uma mistura de sensações: um medo absurdo, de não ter entendido direito aquela frase, ao mesmo tempo em que a compreendia completamente, e junto com esse medo, sentia também uma mistura de pena e compaixão. Acho que me sentia assim, porque compartilhava da mesma solidão.

Fiquei algumas frações de segundo (na verdade, não tenho ideia do tempo real) sem saber que atitude tomar, sem saber, nem ao menos, o que pensar sobre aquilo. Era uma situação de extrema urgência, talvez se eu não agisse da forma correta, algo nada bom poderia acontecer. E decidi abraça-la. Sabia que ela precisava de mim naquele momento, sabia que tudo que ela precisava era de um abraço, era de uma demonstração de carinho de um amigo. Isso seria tudo pra ela. Era o que eu esperava.

Queria abraça-la, mas o meu medo era gigantesco. Havia algo de errado naquela situação, havia algo que não era racional, havia algo que não se encaixa com a realidade. Como poderiam haver fantasmas embaixo da ponte? Aliás, como poderiam existir fantasmas? Fantasmas são histórias, são histórias para assustar criancinhas mal criadas, e desencora-jalas a sair de perto dos pais. Entretanto(infelizmente, ou felizmente, não sei), eu não acreditava mais nisso, porque pelo olhar dela, eu sabia que ela não estava mentindo. Sabia que tudo isso era verdade. E quis chorar, e a abracei. Chorei como nunca havia chorado em minha vida(ela chorava também, pelo menos agora no meu ombro), e por um tempo tudo funcionava: eu acudia a solidão dela, e ela acudia a minha. E ficamos abraçados, por um tempo indeterminado, chorando um no ombro do outro, consolando um a tristeza do outro, e talvez tivéssemos encontrado a solução, talvez tivéssemos encontrado o que todo solitário quer, encontrar alguém com quem se possa compartilhar a solidão (ou talvez, num caso melhor ainda, achado alguém que nos tirasse desse estado).

Queria poder contar o que aconteceu depois, o que aconteceu quando nos soltamos, queria poder contar como fomos depois daquilo, como a minha solidão reagiu a tudo aquilo, como o mundo mudou. Mas, infelizmente, quando estávamos nos soltando, para que pudéssemos trocar algumas palavras, tudo acabou, aquela névoa se esvaiu, e a escuridão do meu quarto voltou a ser o cenário. Foi só mais um sonho de uma noite de inverno, em que a escuridão gélida e a triste solidão, e como muitas vezes já haviam feito, me fizeram companhia.

4 months ago