Outro dia (última madrugada de sábado), estava eu, sozinho, voltando para casa, depois de (mais) um longo e entendiante dia, quando vi uma cena um tanto inusitada, que me impressionou de uma maneira absurda. Quando estava passando na frente de um velho e imundo bar, que já estava de portas fechadas, primeiro vi somente aquela figura, largada ao chão, suja e com um odor de cachaça, o qual chegava a arder o nariz, que senti do outro do lado da rua. Ao me aproximar, enxerguei melhor a figura: era um velho bêbado, sem um dente sequer na boca e largado às traças no chão.
Até aí, nada fora do normal, nada que não fosse trivial, nada que não seja rotina numa madrugada de sábado. No entanto, uma das cenas mais surpreendentes da minha vida estava para acontecer. Ao passo que fui andando e chegando mais perto do bêbado, percebi que ele estava cantando sem parar (o velho cantava blues), estava com um imenso sorriso na boca, uma alegria que não via(muito menos sentia) há um longo tempo. O velho ria mais do que criança quando ganha doce. E a falta de dentes só deixava a cena mais hilária. Olhei para aquilo por um tempo, mas logo os problemas e as velhas preocupações voltaram a tona na minha mente.
Foi aí que aconteceu. No momento em que eu estava exatamente em frente ao velho, rabugento e pensativo como sempre, ele percebeu a minha ilustre presença (só havia eu e ele na rua inteira), e me encarou. Me assustei, e não consigui conter a minha vontade de encará-lo também. Por alguns milésimos de segundo olhamos no fundo dos olhos, um do outro, e ele, como mágica, me entendeu, deu uma risadinha de deboche (como se estivesse rindo da minha imaturidade em lidar com problemas, e provavelmente estava mesmo) e disse:
-Que tristeza é essa, meu fiô? Larga de bobeira e vai vivê!
E tamanha certeza havia nos olhos que me falaram aquilo, e uma alegria ainda maior em viver por trás daqueles olhos desgastados. Aquela falta de dentes era pura experiência de vida. Nunca duvide de um velho bêbado, desdentado, jogado no chão e que canta blues como se fosse o próprio Colin James.




