Nada
O sombrio caso da Rua Albertine

Segundo Capítulo - Senhores Carter

Era assim:

Prezado Senhor Brian Carter, venho por meio desta pedir sua ajuda. Há um enorme problema atormentando minha família, e preciso urgentemente de seus serviços. Minha família corre grande perigo. Duas pessoas já morreram. Indicaram-me o senhor por ser o melhor do país nessa área. Espero que possa nos ajudar. Repito que o caso é de extrema urgência. Peço que o senhor venha à nossa casa o mais rápido possível. O endereço encontra-se no final da carta. Aguardo ansiosamente resposta. O senhor é a nossa unica esperança.

Senhora Clou Albertine

Rua Albertine, 1125”

Por alguns minutos não consegui pensar em nada. Li e reli a carta algumas vezes para ver se entendia direito. Duas pessoas mortas? Seria algum tipo de brincadeira de mal gosto, ou, pior ainda, seria verdade? Esse tal de Brian Carter devia ser alguém importante. Ele devia ser um policial, ou um detetive quem sabe. Que infeliz ideia essa de abrir a carta de outra pessoa. Maldito sobrenome que me fez receber essa carta. Nunca gostei muito do meu nome, o qual é Joseph Carter, mas dessa vez ele tinha realmente me atrapalhado. Só por causa de um sobrenome igual, acabei me metendo em uma enrascada. O correio devia ter confundido os Carters.

Cinco da manhã, eu acordado, sentado na cadeira de madeira da nossa cozinha enquanto lia a tal carta. Tinha me arranjado um enorme problema. Abrira a carta de um desconhecido, por pura curiosidade, e descobrira algo grande. Porém a carta já havia sido aberta, e eu não poderia devolver para o destinatário: seria algo extremamente embaraçoso. O que fazer então? Não tinha ideia. Decidi dormir e resolver isso ao decorrer do dia, pois, afinal, já eram cinco da manhã e às oito eu deveria estar no banco. Como já era esperado, não consegui dormir. Fiquei até as sete acordado pensando no que faria e como resolveria isso.

Fui para o trabalho decidido que o certo a fazer era devolver a carta para o tal Brian Carter. O problema agora era encontra-lo. Passei o dia inteiro procurando por alguma pista; olhei a lista telefônica, fiz ligações para antigos amigos da faculdade e nada. Não achei nada, nem uma pista sequer do endereço ou mesmo algo que comprovasse a existência de tal senhor. Frustrante. Procurei em todos os lugares que podia e não encontrei nada. Achei que era melhor desistir e seguir a vida, pois, afinal, esse tal de Brian Carter não deveria nem existir.

Na outra semana, era aniversário da morte de minha mãe e eu minha mulher íamos ao cemitério visitá-la. Fomos e lá ocorreu algo estranhíssimo: do lado da cova da minha mãe, jazia uma cova com o nome Brian Carter lapidado. Quase gritei de alegria em meio ao dia da morte da minha mãe. Me senti um pouco mal, mas nada que a excitação de ter achado o senhor Carter não resolvesse. O cara realmente tinha existido, o que me levava a um novo problema: o que fazer com a família? Ela precisava de ajuda e o único cara com quem podia contar estava morto.

Minha vida estava uma grande ruína: a hipoteca tinha vencido, o casamento estava desgastado demais (eu era casado com uma mulher compulsiva e controladora), estávamos falidos, e nem meu gato gostava mais de mim. Tomei então uma decisão que nunca me arrependi.Não havia contado nada a minha mulher sobre o caso e não havia motivo para que isso ocorresse agora, e portanto no outro sábado fui à Rua Albertine, número 1125. Toquei a campainha e um mordomo, com uma expressão cadavérica, me atendeu:

- Boa noite. Quem é o senhor?

- Boa noite. Sou o senhor Brian Carter e vim ajudar a família Albertine.

O sombrio caso da Rua Albertine

Primeiro Capítulo - A carta

Eram quatro horas da manhã quando ouvi um barulho em nosso quintal. Um barulho metálico bem alto. Provavelmente era alguém mexendo ou, talvez, roubando algo da nossa caixa de correio ou de nossa lixeira. Rapidamente me levantei, sabendo que minha mulher - com o sono pesado que tinha - não o faria, e fui ver o que estava a acontecer lá fora. Olhei pela janela, ainda com a visão embaçada, para tentar ver o que estava acontecendo, e a unica coisa que vi foi aquela imensa escuridão, a prefeitura vinha prometendo há mais de um ano arrumar a iluminação, da famosa e já meio decadente rua em que morávamos: a Sir Arthur Watson. Por um momento pensei ter visto um vulto preto indo embora apressado, mas provavelmente era só fruto da minha visão embaçada e das sombras formadas pelas luzes semi-acesas que transbordavam das janelas vizinhas.

Tinha certeza que haviam mexido em algo. Não sabia se ainda havia alguém no quintal, e em razão disso peguei um velho taco de beisebol (do tempo em que jogava no time da universidade) e saí. Dei um grito:

- Alguém aí?

Ninguém respondeu. Ainda bem, pensei comigo. Já com meus trinta e poucos anos, não diria que sou das pessoas com o melhor preparo e porte físico, e uma briga com um ladrão não seria algo muito prazeroso. Os anos de emprego no banco- que me reservaram, e ainda reservam, excessivas horas de trabalho em frente ao computador- não me foram muito generosos com a saúde. Meus vícios também contribuíram de forma a aumentar a gravidade do meu problema. O cigarro era, com certeza, o pior dos meus problemas; a asma me atrapalhava um bocado. Fui então dar uma olhada na lixeira e na caixa de correio. 

Comecei pela caixa de correios e logo encontrei algo muito interessante e estranho, além, claro, das diversas cobranças que não cansavam de aparecer e atormentar o meu já desgastado de casamento. Havia dentro da nossa bem usada caixa de madeira uma carta diferente. Não via-se remetente na parte de fora, somente tinha um escrito:

Esta carta não deve ser violada em ocasião alguma. É de extrema importância que seja aberta somente pelo Senhor Brian Carter. Contém assunto de absoluta urgência. 

Aquilo era demasiadamente inesperado. A vida pacata dos últimos anos sem dúvida me transformara em alguém rotineiro, e essa carta fugia totalmente da rotina. Entrei pela porta da cozinha, arranjei uma cadeira perto da mesa de jantar e fiquei a pensar se jogava a carta fora ou se a lia. Apesar de um tanto assustadora, a minha maior, e talvez infeliz, virtude não me deixou jogá-la fora. Eu ainda era curioso demais para deixar algo assim escapar das minhas mãos. Decidi lê-la. Abri-a com todo o cuidado para que nenhuma mínima parte se rasgasse- pois sempre soube o quão desastrado sou. Analisei tudo primeiro: a letra era, de uma certa maneira, diferente e instigante;a cor vermelho escarlate da grafia era decididamente suspeita; a carta aparentava ter sido escrita as pressas: havia rabiscos e as letras estavam bem juntas. O mais impressionante, sem dúvida alguma, era uma gota de algum líquido vermelho que pairava no topo da folha. Parecia sangue, mas essa ideia logo afastou-se por parecer muito nefasta. Enfim comecei a leitura. 

O barulho do vento

Dez da noite e a gritaria começava de novo atrapalhando o sono da vizinhança inteira. Mais um dia, a mesma coisa, o mesmo quebra-pau, as mesmas ofensas e o mesmo final: o garoto jura que irá fugir de casa, o pai (um ex-militar da segunda guerra mundial) dá uma surra nele e o coloca de castigo; e a mãe submissa assiste a tudo com lágrimas de arrependimento de uma escolha errada, e de, talvez, um pouco de raiva do filho. E todo dia é assim, esse é o maravilhoso cotidiano daquela família.

Era vizinho da família e por isso conhecia a rotina inteira dela, sabia de tudo( ou quase tudo). O menino, já com 16 anos, tinha algo nos olhos, algo que talvez só os adolescentes têm, algo que seus pais nunca entenderiam. E esse era o grande problema: os seus pais, principalmente o pai. Acredito que nenhuma relação entre pai e filho seja fácil, todas têm os seus problemas, mas a deles com certeza foi a mais complicada que já vi, bem mais do que a minha. Não havia um ponto sequer em comum entre os dois, não existia nada em que os dois concordassem, desde a guerra do Vietnã até o estilo de música a ser tocado no rádio do carro, tudo que existia naquela família era discussão e discussão.

Mas havia algo de errado naquele dia, a intensidade dos barulhos estava maior, o cachorro latia mais alto, até o vento na rua parecia entender o que estava acontecendo. Acredito que o limite havia sido alcançado, e aí atitudes extremas foram tomadas. E de repente a sinfonia do vento foi cortada pelo som de um tiro, seguido de um silêncio cortante. 

O filho havia voltado tarde para casa mais uma vez na semana. Tinha ido a uma festa na casa de um amigo, e de novo tinha cheirado cocaína. Quando chegou em casa, viu a cena habitual de toda noite em sua casa: o pai batendo em sua mãe, enquanto ela pedia desculpas (sem motivo algum) e implorava pela misericórdia do marido. Assim que o viu, o pai, aproveitando o momento, chegou perto do filho, e lhe disse:

- Você é igual a sua mãe, um fracassado, um completo fracassado - Deu um cuspe na cara do filho, e foi continuar a surra na mulher. Porém não deu tempo. Enquanto ia à cozinha (onde a mãe tentava limpar o próprio sangue derramado no chão) o filho foi ao quarto, voltou e o chamou. Quando o pai virou, encontrou a seguinte cena: o filho segurava a espingarda que pertenceu ao avô - um velho americano caçador de veados - apontada para ele. Ele olhou o pai no fundo dos olhos, ainda no êxtase do efeito da cocaína, e disse:

- O fracassado da família é você, sempre foi e sempre será. Eu tenho nojo de ser seu filho, eu tenho nojo de ter o mesmo sangue que você.

E dito isso, o gatilho foi apertado. O barulho do vento lá fora parou, o cachorro calou-se, e a unica coisa que se ouviu foi o estrondo do corpo do pai caindo no chão, a cabeça perfurada pela bala calibre trinta e oito. Acabou. Tudo havia acabado. Todo o sofrimento da família havia acabado. A mãe mandou o filho buscar a pá para enterrar o corpo rapidamente embaixo da garagem. Ninguém nunca descobriu. A mãe e o filho conseguiram a liberdade que deles sempre foi tomada pela presença do pai, e viveram muito bem a vida inteira. 

Afinal, até que foi uma cena cômica.

Apenas outra noite de inverno.

Definitivamente aquilo era estranho. Num momento com a cabeça na maciez do meu quarto, no outro estava num velho conhecido morro, um morro que ficava perto da casa onde eu morava quando criança. Era um lugar famoso por sua ponte, que ligava-o à um outro morro menos importante, e também famoso por suas incríveis névoas que cobriam-no completamente durante as manhãs de inverno e de outono.

Estava andando por lá, mas algo havia de diferente naquele lugar, havia uma névoa muito grande, e era uma manhã gélida, mais do que o normal naquele morro, como se a névoa estivesse sugando qualquer calor existente, qualquer felicidade que estivesse por perto. Continuei andando pelo lugar, à procura de algo que não sabia direito o que era.

Quando vi, logo soube o que estava mudando todo o clima dali. Algo complicado e diferente, uma amiga minha estava em um canto, olhando fixamente para a ponte, e chorando sem parar. Ela chorava, e soluçava sem hesitar. Fui correndo ver o que estava acontecendo. Foi diferente, algo muito diferente aquilo que aconteceu.

Cheguei à minha amiga e perguntei:

- Mas o que aconteceu?

Ela me respondeu, com uma imensidão de tristeza, a qual percebi quando olhei no fundo dos seus olhos, os mesmos que lacrimejavam sem parar, e entendi a solidão eterna que ela sentia naquele momento:

- Sabe os mortos que vivem debaixo da ponte? Então, eu converso com eles.

Talvez tenha sido o momento mais terrível de toda a minha insignificante existência. Olhei para seus olhos, e dentro havia um olhar mortal, como se ela mesma estivesse morta. No momento em que ela me disse isso, cada parte do meu corpo, do dedinho do pé até o último fio de cabelo, se arrepiou, e eu senti uma mistura de sensações: um medo absurdo, de não ter entendido direito aquela frase, ao mesmo tempo em que a compreendia completamente, e junto com esse medo, sentia também uma mistura de pena e compaixão. Acho que me sentia assim, porque compartilhava da mesma solidão.

Fiquei algumas frações de segundo (na verdade, não tenho ideia do tempo real) sem saber que atitude tomar, sem saber, nem ao menos, o que pensar sobre aquilo. Era uma situação de extrema urgência, talvez se eu não agisse da forma correta, algo nada bom poderia acontecer. E decidi abraça-la. Sabia que ela precisava de mim naquele momento, sabia que tudo que ela precisava era de um abraço, era de uma demonstração de carinho de um amigo. Isso seria tudo pra ela. Era o que eu esperava.

Queria abraça-la, mas o meu medo era gigantesco. Havia algo de errado naquela situação, havia algo que não era racional, havia algo que não se encaixa com a realidade. Como poderiam haver fantasmas embaixo da ponte? Aliás, como poderiam existir fantasmas? Fantasmas são histórias, são histórias para assustar criancinhas mal criadas, e desencora-jalas a sair de perto dos pais. Entretanto(infelizmente, ou felizmente, não sei), eu não acreditava mais nisso, porque pelo olhar dela, eu sabia que ela não estava mentindo. Sabia que tudo isso era verdade. E quis chorar, e a abracei. Chorei como nunca havia chorado em minha vida(ela chorava também, pelo menos agora no meu ombro), e por um tempo tudo funcionava: eu acudia a solidão dela, e ela acudia a minha. E ficamos abraçados, por um tempo indeterminado, chorando um no ombro do outro, consolando um a tristeza do outro, e talvez tivéssemos encontrado a solução, talvez tivéssemos encontrado o que todo solitário quer, encontrar alguém com quem se possa compartilhar a solidão (ou talvez, num caso melhor ainda, achado alguém que nos tirasse desse estado).

Queria poder contar o que aconteceu depois, o que aconteceu quando nos soltamos, queria poder contar como fomos depois daquilo, como a minha solidão reagiu a tudo aquilo, como o mundo mudou. Mas, infelizmente, quando estávamos nos soltando, para que pudéssemos trocar algumas palavras, tudo acabou, aquela névoa se esvaiu, e a escuridão do meu quarto voltou a ser o cenário. Foi só mais um sonho de uma noite de inverno, em que a escuridão gélida e a triste solidão, e como muitas vezes já haviam feito, me fizeram companhia.

Madrugada em São Paulo

Outro dia (última madrugada de sábado), estava eu, sozinho, voltando para casa, depois de (mais) um longo e entendiante dia, quando vi uma cena um tanto inusitada, que me impressionou de uma maneira absurda. Quando estava passando na frente de um velho e imundo bar, que já estava de portas fechadas, primeiro vi somente aquela figura, largada ao chão, suja e com um odor de cachaça, o qual chegava a arder o nariz, que senti do outro do lado da rua. Ao me aproximar, enxerguei melhor a figura: era um velho bêbado, sem um dente sequer na boca e largado às traças no chão.

Até aí, nada fora do normal, nada que não fosse trivial, nada que não seja rotina numa madrugada de sábado. No entanto, uma das cenas mais surpreendentes da minha vida estava para acontecer. Ao passo que fui andando e chegando mais perto do bêbado, percebi que ele estava cantando sem parar (o velho cantava blues), estava com um imenso sorriso na boca, uma alegria que não via(muito menos sentia) há um longo tempo. O velho ria mais do que criança quando ganha doce. E a falta de dentes só deixava a cena mais hilária. Olhei para aquilo por um tempo, mas logo os problemas e as velhas preocupações voltaram a tona na minha mente.

Foi aí que aconteceu. No momento em que eu estava exatamente em frente ao velho, rabugento e pensativo como sempre, ele percebeu a minha ilustre presença (só havia eu e ele na rua inteira), e me encarou. Me assustei, e não consigui conter a minha vontade de encará-lo também. Por alguns milésimos de segundo olhamos no fundo dos olhos, um do outro, e ele, como mágica, me entendeu, deu uma risadinha de deboche (como se estivesse rindo da minha imaturidade em lidar com problemas, e provavelmente estava mesmo) e disse:

-Que tristeza é essa, meu fiô? Larga de bobeira e vai vivê!

E tamanha certeza havia nos olhos que me falaram aquilo, e uma alegria ainda maior em viver por trás daqueles olhos desgastados. Aquela falta de dentes era pura experiência de vida. Nunca duvide de um velho bêbado, desdentado, jogado no chão e que canta blues como se fosse o próprio Colin James.

Auto-Mecanização

Não sei mais o que fazer, essa ausência de vontade de tudo está fazendo tudo cada vez mais chato e entendiante. Já é constante a ausência. Não há falta, não há necessidade, não há nada, exceto a ausência e o contínuo (e cada vez mais crescente) desinteresse. Me sinto em um eterno piloto automático. A dor de cabeça é intensa, parece que sempre esteve aí. A dor de cabeça é constante -tudo é. O sono e a insônia também. É um tanto paradoxal, enquanto o sono é absurdo, a insônia é tão grande quanto. Os problemas são muitos, tantas coisas pra se resolver e se pensar, que as horas do dia não são suficientes e as da noite (que pra dormir deveriam servir, e que talvez até serviram num tempo longínquo) acabam sendo ocupadas pela enorme quantidade de ideias, problemas que temos que discutir e pensar sobre. Acredito que seja isso a insônia: ocupação do sono com o que excesso de ideias do dia (muitas vezes da rotina).

E insônia não me falta, o que me falta é tempo disponível para dormir. Os dias são pequenos demais, vinte e quatro horas não são suficientes para o que me é exigido. Imagino que um dia não teremos mais o tempo para dormir, será criado algo que nos faça produzir algo durante o tempo de descanso para que não percamos tempo(como estou perdendo escrevendo isso) com tarefas inúteis como dormir. O desenvolvimento da sociedade, a mecanização do mundo, a globalização mundial, a criação da aldeia global, em que todos estão conectados o dia inteiro, cada hora, cada minuto, cada milésimo de segundo todos estarão conectados à tudo e vice versa. Tudo está fadado à estar conectado a tudo. A quantidade de informações será, talvez e provavelmente já seja, demais. Todos estamos fadados a estar conectados a todos. E infelizes.

Talvez não seja um problema essa minha ausência de vontade, talvez eu só esteja fazendo a minha auto-mecanização. Transformando-me numa máquina, sem vontade, sem interesse, controle algum, deixando o controle nas mão do destino(não tenho a menor ideia do que seja). Talvez esse seja o futuro, e quem sabe isso tudo não tenha mais volta.

Comprador.

E de repente as vi indo embora. Vendi todas as minhas ideias para um desconhecido colorido, um maluco de chapéu esvoaçante e tão colorido quanto a noite de ano novo. Ele se dizia um comprador de ideias. Chegou com um papo estranho, contando histórias malucas de sua infância, de seus outros trabalhos, contava uma história mais louca que a outra. De começo não entendi aquela figura. Era uma figura diferente, aquele tipo de figura que chama a atenção, mas que ninguém realmente se importa.

Disse que tinha um emprego, uma missão, algo que tinha que fazer. Me contou que era um comprador de coisas. Mas não de coisas comuns. Um tipo de comprador diferente. Disse que não aparecia para todos, só para poucos, e que isso fazia de mim alguém especial. Falou que precisava de algo que pertencia à mim, uma coisa importante, uma coisa mais que diferente. Queria que eu vendesse minhas ideias e meus sonhos para ele.

Que cara maluco, logo pensei. Mas tive calafrios quando percebi que ele não estava brincando, estava falando mais sério do que já vi alguém falar. Achei que estava ficando doido. Um maluco me chega pedindo para que eu venda minhas ideias e meus sonhos para ele. Penso comigo mesmo: ele só pode ter saído do hospício. Mas havia algo nele que me dizia que tudo aquilo era verdade, que ele não estava louco, que ele não estava inventando história, que ele queria comprar mesmo. Eu venderia meus sonhos e minhas ideias e ele me daria uma coisa em troca. Uma coisa que não contarei aqui, algo pessoal e complicado. Mas era uma oferta tentadora e complicada. A oferta dele era boa. Percebi que o que ele queria mesmo eram meus sonhos.

Acho que sonhos tem um valor muito grande no mercado negro. Sonhos são muito fortes, pirados, coloridos, monocromáticos, complexos… sonhos são tudo no mundo. O mundo é movido a sonhos. Decidi que venderia minhas ideias. Afinal, ideias não são tão importantes, não é? E a oferta era realmente boa. Ou pelo menos parecia. Quando finalmente decidi aceitar a oferta, o comprador me disse que o trato só seria firmado quando nós apertássemos à mão um do outro. Então o fiz. Quando apertei a mão dele, senti a maior dor que já senti em toda minha vida. E de repente as vi indo embora.

Quando percebi, não tinha mais nada na cabeça. Só meus sonhos, nenhuma ideia que me atrapalhasse, nenhum medo estúpido ou sem sentido. Só os sonhos. Minha mente era pura e simplesmente um mar de sonhos. A unica coisa que importava agora, para mim, eram meus sonhos. Eu tinha que ir atrás deles, sabia disso. E fui atrás. E assim fui feliz. Agora que já realizei todos e já estou morto -são sinônimos-, entendo a missão daquele comprador maluco. A missão dele era liberar as pessoas de seus medos para que elas pudessem ir atrás de seus sonhos, sem medos e ideias contrárias. A missão dele era deixar as pessoas serem felizes.

Roda viva.

Faz tempo que essa infeliz ideia fica rodeando meus pensamentos sem parar. Me sinto em uma enorme roda gigante. Quando parece que tudo mudou, novos pensamentos, novas ideias, novas pessoas, um novo jogo, de repente me situo e percebo que estou de volta à primeira ideia. As peças mudam, mas a origem delas é a mesma.Tornou-se rotina. Todo começo de semana acho que é uma semana nova, diferente, que irá fazer alguma diferença no todo. Talvez sim, talvez não. Não sei, tampouco uma ideia, uma pista tenho. E ao final de cada semana, continuo deitado na cama, com as mesmas ideias, os mesmos sonhos, os mesmos choros, as mesmas angústias, nada muda. Meus pensamentos são como fios de cabelo. Quando algum morre, ou cai, um novo(mas tão igual) nasce no lugar, no mesmo lugar. Exatamente naquele lugar. Me perco neles. São muitos, como se fosse sangue correndo sem parar, um coração pulsante que bombeia as ideais sem parar. Me sinto numa roda gigante. Nos meus melhores dias me encontro no topo dela, nos piores(se fosse outra pessoa não esperaria coisas boas de mim) sou o próprio poço. Na grande maioria dos dias estou no meio, no meu tão fácil de lidar piloto automático, deixando-me ser guiado pelo mundo. Então percebo porque não consigo sair dessa roda gigante de pensamentos, desse ciclo interminável de ideias copiadas de mim mesmo. Sou a própria roda gigante.

Sonhador

E era um menino diferente, pois era sim. Não era bonito, mas conseguia o que queria com seu sorriso simpático e seu olhar sincero(nem tanto assim). Era um garoto quieto à primeira vista, mas bastava conhecê-lo um pouco para que se tornasse um grande falador. Contador de histórias de primeira, tinha um jeito que cativava as pessoas. Com sua fala mansa enrolava a todos. Mas era um bom garoto. Tinha amigos, e muitos. Tinha sonhos, tinha muitos sonhos. Se dava bem com todo mundo, era tido com grande afeto pelos amigos. Mas as únicas pessoas com quem não se dava bem eram seus pais. O pai, ex-militar, não gostava de suas idéias revolucionárias e sua inclinação para a “vadiagem” - como costumava dizer;  a mãe, dona de casa submissa, colocava a culpa de suas frustrações pessoais em seu filho único. Dessa maneira, o garoto sempre procurou maneiras de fugir da realidade frustrante de sua família. Uma das maneiras que encontrou foi sonhar. Sonhava o tempo inteiro, tanto dormindo quanto acordado. Vivia em um mundo diferente a cada dia. Durante anos foi feliz assim, somente sonhando e fingindo estar em um outro local,em uma outra época. Porém o tempo passa. O tempo passou até que o pobre garoto já não fosse um garoto, e sim um homem. Então, quase sem perceber, o garoto foi perdendo o brilho do olhar; a amargura da vida dos pais, infelizes e sem dinheiro, acabou pouco a pouco atingindo o filho e transformando-o.. O garoto sonhador parou de sonhar, parou de acreditar que era possível um mundo melhor, só via maldade. O menino sonhador tornou-se um homem amargurado.

Medo.

As pessoas tem medo de suas próprias decisões. Medo de toma-lás, medo de assumi-lás. Procuram sempre uma capa, um escudo, um bode expiatório. Choram, negam, esperneiam, se matam, matam umas às outras. Tudo para fugir ou tentar esconder uma decisão tomada erroneamente. Tudo para esconder uma atitude tomada, uma decisão errada. É um dos males do mundo. Muitas coisas são feitas pra encobrir decisões mal tomadas.